
Na semana passada, Mario Draghi defendeu que «o modelo social europeu está morto», mas logo a seguir declarou que «o modelo social europeu deve ser revisto». Não sei se Draghi fez estas afirmações possuído por um certo espírito pascal: está morto, mas ressuscitará. Provavelmente, para além do terceiro dia. E talvez um dia venha a reinar. Noutro mundo. Sentado à direita de deus pai!...
Vivo ou morto, a direita faz tudo para que morra ou não ressuscite, cimentando a pedra com que cobriu o sepulcro. Afinal, o seu deus apaziguador cedo se revelou um deus insaciável e incapaz de contentar-se com as migalhas que de vez em quando ela deixava cair da mesa e ameaçava cada vez mais sentar-se lado a lado à mesa do banquete.
Vivo ou morto, a esquerda, consumida e desnutrida pela travessia do deserto em busca do paraíso celestial, ajoelha a seus pés, proclama a sua glória, insurge-se contra os novos pilatos, os novos fariseus e vendilhões do templo, contra a sua flagelação e crucificação e proclama-o com deus único e verdadeiro capaz de providenciar a felicidade terrena dos pobres e oprimidos. E acredita que, ainda que morto, ressuscitará para reinar neste mundo.
Confesso que sobre esta questão do «modelo social europeu», como em todas as questões de fé, também não sou crente nem agnóstico nem ateu, mas, se alguma vez existiu e ainda não morreu, o «modelo social europeu» estará ligado à máquina, num estado vegetativo sem retorno, consumindo-se e consumindo quem vive agarrado à miragem de o salvar.
A esquerda só sobreviverá quando se libertar da sua morte.
á de moura pina